sábado, 27 de agosto de 2016

25 anos de "Ten"


Até 1990, o movimento musical que vinha de Seattle e trazia um novo sopro de vida ao rock norte-americano já era uma realidade nos Estados Unidos. No entanto, para o resto do mundo, ou pelo menos para o grande público, o grunge era um completo desconhecido. Aqui no Brasil, me lembro que a revista “Bizz” fez uma série de matérias por volta de 1990 sinalizando que alguma coisa pesada e barulhenta estava acontecendo com o rock da terra do “Tio Sam”. O grunge só ganharia a visibilidade internacional a partir de 1991, e causaria um “terremoto” de grandes proporções no rock mundial só comparável ao impacto do movimento punk nos anos 1970. E um dos responsáveis por esse “abalo sísmico” roqueiro de proporções mundiais foi Ten, o primeiro álbum da carreira da banda Pearl Jam, um dos ícones do “som de Seattle”, como também é chamado o grunge.

O Pearl Jam surgiu dos cacos da banda de heavy metal Mother Love Bone, que chegou ao fim em 1990 com a morte do seu vocalista, Andrew Wood, vítima de overdose de heroína. Dois ex-integrantes, o guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament, começaram a desenvolver com o guitarrista Mike McCready, um trabalho musical novo e pesado. Uma fita que gravaram caiu nas mãos de um surfista via Jack Irons, ex-baterista do Red Hot Chili Peppers que havia recusado o convite pra entrar na banda. O tal surfista ouviu a fita, que só tinha músicas instrumentais, e escreveu algumas letras. Gravou os vocais com as letras que escreveu para as músicas da fita e enviou para Ament e Gossard que gostaram e o convidaram para ser o vocalista. O tal surfista era Eddie Vedder.

Mother Love Bone, de onde saíram Stone Gossard (primeiro à esquerda) e
Jeff Ament (último à direita) para formar o Pearl Jam.

Com a entrada de Dave Krusen para a bateria, a banda se completou e foi batizada de Mookie Blaylock, e em pouco tempo, já estavam assinando contrato com a Epic Records no final de 1990. Mas o nome Mookie Blaylock foi logo trocado por Pearl Jam, sugestão de Eddie Vedder cuja bisavó era chamada “Pearl Jam” (“geleia de pérola”).

Entre março e abril de 1991, o Pearl Jam gravou o seu primeiro álbum, tendo Rick Parashar na produção. Boa parte do disco foi baseada no material que havia sido gravado nas fitas “demo” e as letras escritas por Eddie Vedder.

Intitulado Ten, o álbum de estreia do Pearl Jam chegava às lojas em 27 de agosto de 1991. O estouro da faixa “Alive” nas rádios e o vídeo clipe sendo bem executado na MTV norte-americana, alavancaram as lentas vendas inicias de Ten. O álbum acabou entrando no Top 10 da Billboard 200. As críticas a Ten foram de uma certa maneira equilibradas. Parte da imprensa musical teceu elogios ao álbum, enquanto outra não poupou duras críticas. Aqui no Brasil, a “Bizz” se mostrou um tanto quanto “morna” ao primeiro trabalho do Pearl Jam.

Pearl Jam
                                        
Ainda no campo da crítica, irônico foram as críticas raivosas do ninguém menos que o “band leader” do Nirvana, Kurt Cobain, a Ten, afirmando que o Pearl Jam era “vendido” e “oportunista”.  Talvez ele estivesse se referindo ao fato do Pearl Jam ter assinado com uma grande gravadora como a Epic Records, e não com uma gravadora como a Sub Pop, selo de Seattle que foi o “celeiro” das bandas grunges, o que eu acho uma tremenda besteira por parte de Cobain. O Alice in Chains, outro ícone do grunge de Seattle, havia lançado o seu primeiro álbum, Facelift, por uma grande gravadora, a Columbia, um ano antes do Pearl Jam, vendendo mais de 2 milhões de cópias. 
A ironia é saber que o Nirvana do Cobain, que surgiu da cena alternativa, acabou devorado pelo “sistema” com o sucesso planetário de Nevermind no maintream. Tanta exposição fez Cobain não segurar a onda, e já sendo um cara com tantos problemas e “demônios” internos, acabou metendo uma bala na cabeça em 1994, pondo fim à própria vida, ao Nirvana e à Era Grunge. O Pearl Jam seguiu em frente, e sobreviveu a tudo isso com dignidade.

Os temas abordados nas canções de Ten são densos e até sombrios em algumas faixas. Vão desde suicídio (“Jeremy”), solidão (“Porch”), mendicância ("Even Flow") até temas mais amenos (“Oceans”). “Alive” é praticamente uma autobiografia de Eddie Vedder que fala de um garoto que descobre que seu pai é na verdade seu padrasto.

Eddie Vedder
Musicalmente, Ten apresenta uma bem dosada mistura de referências do hard rock clássico dos anos 1970 com a fúria selvagem do indie rock, guitarras pesadas e uma certa levada dançante marcada pelo baixo e bateria, remetendo ao funk metal que estava em voga na época através de bandas como Red Hot Chili Peppers, Faith No More, Living Colour entre outras. A pegada de rock clássico das guitarras do Pearl Jam era o que o diferenciava das outras bandas da explosão grunge. É possível perceber “ecos” de Jimi Hendrix por quase todo o álbum nos solos executados por Mike McCready, principalmente em “Why Go”(uma das minha preferidas do disco) na qual os efeitos de pedais wah-wah parecem fazer a guitarra “derreter”. Além disso, tem a voz rasgada de Eddie Vedder que nos palcos se agiganta com a sua presença carismática. Essas qualidades acabaram fazendo o Pearl Jam uma perfeita banda para grandes estádios e arenas.

“Alive”, “Jeremy”, “Even Flow” e “Black” foram os grande hits de Ten. O vídeo clipe de “Alive” foi indicado para o MTV Video Music Awards na categoria “Melhor Video Alternativo”, em 1992. “Jeremy” teve o seu vídeo clipe premiado na edição de 1993 do MTV Video Music Awards em quatro categorias.

Em mais de 20 anos de lançado, estima-se que Ten já tenha vendido mais de 13 milhões de cópias.

Nevermind, segundo disco da carreira do Nirvana, pode até ser o mais importante álbum do grunge, mas sem sombra de dúvidas, o melhor álbum de estreia de uma banda grunge é de longe, Ten. Nenhuma banda da onda grunge estreou também em disco como o Pearl Jam com Ten. De qualquer forma, ambos os álbuns, juntamente com Badmotorfinger, do Soundgarden, ajudaram naquele segundo semestre de 1991, a disseminar o som grunge em escala planetária e a modificar a trajetória do rock.


"Alive"


"Jeremy"


"Even Flow"


"Black"
                                         

                                       



                                       


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